quinta-feira, 14 de março de 2013

Erro médico

Chovia intensamente no estacionamento do hospital. Manolo olhou novamente para o relógio e suspirou. Há quinze minutos que se tentava recompor sem qualquer sucesso. Os seus membros jaziam como mortos na marquesa que tinha roubado no consultório. Duas poças formavam-se atrás das orelhas, lágrimas de culpa do que tinha feito. Sim, o dia já se tinha alongado infinitamente, as enfermeiras não paravam de o chatear e interromper com perguntas de doentes que aguardavam na sala de espera. Todo o sistema tinha falhado mas não compreendia a leveza como o podiam interromper enquanto ele tinha uma agulha nas costas da doente, penetrando até ao espaço subaracnoídeu.

Manolo arrastou as pernas para o lado, que tombaram desamparadamente, e numa tentativa de se levantar finalmente acabou com a face entre as coxas. Os pensamentos fugiam num frenesim de hora de ponta, ele tinha que se controlar. Respirou fundo e recapitulou os momentos anteriores. Tinha coberto o banco da sua nova colega, inimaginavelmente impreparado para dar cuidados de saúde numa instituição completamente desconhecida. Tinha tomado a doente dela para lhe administrar uma injecção intratecal. Tudo parecia ter corrido bem, os lotes correspondiam ao doente. Só segundos mais tarde se apercebeu que a seringa continha vincristina. Anos de estudo de medicina tinham-no preparado para um momento como este, sem falar sequer do internato de oncologia. E sem sequer levantar um mínimo de suspeita, o erro tinha sido cometido, pelas mãos dele. Roberta, de 27 anos, casada e com um filho, vítima do maior erro da sua carreira. A injecção intratecal de vincristina provocar-lhe-ia muito provavelmente a morte. Sem qualquer desculpa ele não tinha visto o rosto do processo, não tinha notado que ela era de Miranda do Douro. E foi ainda sentado e debruçado nas costas de Roberta que a enfermeira lhe fez notar a folha de rosto e nesse ponto ele conseguia rever a pior sensação da sua vida, como se o seu estômago tivesse sido arrancado pelas costas por uma goma de ursinho da Haribo®. Não tinha matado uma pessoa, tinha condenado um hospital inteiro… se os militares conseguissem impedir mais carnificina. Em poucos segundos Roberta tornou-se num réptil gigante, uma patada depois o mundo havia escurecido o que o trazia ao ponto em que havia ficado.

Limpou as lágrimas e levantou-se. O cenário era aterrador, como ficar numa festa preso a falar com uma pessoa que trouxe o iPad. O piso do gabinete, branco e frio, contrastava com o sangue e os corpos da enfermeira e do estagiário que o tinham acompanhado. Os seus corpos cortados em filetes lembravam as embalagens de bifes do supermercado, bonitos por cima, o lado negro, sangue e peças intragáveis por baixo. “Só falta a esponjinha”, pensou. Passando por cima deles saiu cautelosamente pelo buraco que outrora teria sido a porta, agora com o caixilho arrancado pela monstruosa cabeça da mirandaraptor. Nada na sua vida o tinha preparado para o que veria a seguir. O ar tornou-se irrespirável, um misto de areia e óleo Johnson. Cabos de rede faziam de cobras, escorregando pelas paredes e aterrando no chão e no corpo escamoso de Roberta. O sistema de apoio ao médico tinha sobreaquecido novamente e o ar condicionado, entupido em teias de aranha que as empregadas insistiam em deixar por pensar trazerem-lhes dinheiro e pseudomonas, não tinha sido suficiente. A sala de informática explodiu, num caos de figuras de anime, óculos de massa e respectivos informáticos, lubrificante barato e colecções pornográficas japonesas. A pobre e mortífera mirandaraptor tinha tido o segundo azar do dia ao passar no corredor no momento errado. Mas milhares de vidas foram assim poupados, além de todo o dinheiro necessário para mobilizar as forças armadas.

Anos mais tarde Manolo ainda se lembrava do caso, apesar de que agora substituíra a bata e estetoscópio por fato e gravata que usava como director e coçador profissional de micose. Todo o incidente lhe continuava a tirar noites de sono, noites perdidas a dar seminários a internos sobre como um erro do sistema informático (como constava nos relatórios oficiais) tinha custado a vida a uma doente, uma enfermeira e um interno, e como quase viu a sua vida perder-se frente à terrível e temível mirandaraptor.

Não cometam o mesmo erro que o Manolo. Exija que o seu consultório esteja afastado do departamento técnico de informática do seu hospital.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Psy-ai-ai


Os meus gostos musicais são um tanto quanto peculiares mas vão a pouco e pouco encaixando numa certa forma igual à de tantos amigos meus: ouvir músicas “que os nossos pais ouviam” porque hoje em dia há a ideia de que cantar é algo que se faz com um sintetizador, implica o uso de um fedora e, no caso masculino, uma total ausência de genitália. No caso de uma mulher, cantar implica um videoclip porque a música é muito má a transmitir nudez (não que eu me importe muito com isso, mas a maior parte das vezes meto a televisão em mute para não me distrair).

Mas há dois estilos de que não me afasto muito: psytrance (e goatrance num grau talvez um pouco menor) e Jamiroquai. Sim, Jamiroquai é uma banda e não um estilo. Mas também há mais tablets no mercado e cada vez que mexo na minha em público vem um palhaço perguntar-me que iPad estou a usar. Não há ninguém como o Jami logo não faz sentido dar-lhe uma categoria.

Voltando ao psytrance.

O psytrance mantém-se relativamente fiel às suas origens e tem características que apelam, não ao homem moderno que tem coisas como necessidades emocionais e usa roupas que o tornam tão ágil como um hamburger no chão, nem ao homem indie, que faz graves reacções anafilácticas a tudo o que não tenha um filtro do instagram em cima, mas a uma espécie muito própria. O psytrance apela ao ouvido daqueles que querem ouvir música e não dormir, que querem ser produtivos e criativos, aos maníacos, aos que gostam de dançar mas não percebem porque a house music passou a ser um rap com uhn-tiss atrás. O psytrance não dá para utilizadores de smart-shops, é demasiado sincero e não tem intenções de pertencer ao grupinho.

Outro aspecto muito apelativo é que os artistas que produzem este tipo de música já sabem mexer em sintetizadores com a experiência devida. Todos eles sabem que qualquer fórmula matemática tem melhor voz que a nicki minaj, misturá-las é criar um híbrido que necessariamente será pior do que o som puro.

Isto são tudo opiniões que não exprimem com clareza porque gosto de psychadelic trance. Faço agora um pequeno exercício para tentar percebê-lo: Custa-me muito a integrar-me na sociedade actual, uma em que a maioria das pessoas toma uma decisão semi-informada de condenar uma cultura inteira ao fracasso e destruição a médio-longo prazo. Não sendo de todo uma comparação perfeitamente legítima, para mim e uma pequena mão cheia de pessoas, viver no mundo ocidental é como viver com cancro. Sobreviver neste mundo pitoresco implica uma dose cavalar (ha… cavalo colombo, sad pun) de sadomasoquismo. Há outra solução, a tristeza e a depressão, mas entrar nesse caminho é mais uma vez entrar no mágico mundo politicamente correcto da vitimização, a grande droga do século XXI. Fazer um luto por um fim incerto é tão absurdo como um matemático chorar porque não percebe como funciona uma fórmula que nunca ouviu falar. E é para mariquinhas.
Nesta conjuntura entra o psy-trance, a marcha triunfante em direcção a um horizonte tão animador como a sucursal dos correios mais perto de si! É uma música que oiço em direcção ao hospital quando sei que me esperam banhos de estatismo, quando estou a ver no facebook as novidades das mulheres polvilhando frases em helvética que nunca deviam ter visto a luz do dia e dos machos beta a defender a colectivização dos testículos para ver se lhes calha um na rifa. É a música que oiço enquanto escrevo e que me faz sorrir porque me lembra que a minha sanidade mental é tão estável como um copo de água na mão de um parkinsónico e que mais importante que passear do eu formal, criatura que fica muito bem de fato e gravata, para o campo da insanidade “saudável”, é saber o caminho, ir dormir a casa e voltar ao campo dos cogumelos quando é preciso.

E no fim escrever um texto de ~650 palavras e pensar que está espectacular porque estava era com atenção à música.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

É natal, venha a comida amarela e o egoísmo


Cada vez mais tenho vontade de criar uma religião. Por várias razões: quero ter seguidores (é sempre uma coisa engraçada para escrever nos cartões de visita), sinto que tenho uma capacidade de pensamento digressivo suficiente para enfiar uns fulanos em vestes bizarras a fazerem coisas estranhas e uma verborreia capaz de preencher um hardcover. E gostava um dia de ver no facebook a igreja de [X] a reclamar o natal para a sua posse. Este foi um natal de gentes egoístas que queriam o natal só para elas:


Os católicos estão cada vez mais assanhados, como grupo que exerce cada vez menos respeito no segmento populacional da religião do politicamente correcto, corrigem em demasia atirando o chavão de herege e derivados para tudo o que mexa e não esteja pregado a uma cruz. Dizer que o natal é católico ou cristão é absurdo, o natal é um dia e as massas vão dizendo o que simboliza esse dia. Há anos que simboliza prendas para todos. Hoje simboliza a comida amarela e a véspera dos saldos pós natalícios. Eles estão simplesmente aborrecidos porque perderam a luta dos pastores. Animem-se, há mais não sei quantos grupos da pecuária que perderam as ovelhas para os marxistas culturais. Ao menos vocês ainda têm roupas luzidias e muitas capelinhas para encher com idosos.

Os ateus bacocos também não se safaram da festa (e qualquer bom homem de religião faça o favor de me colocar neste grupo, apesar de que bacoco é muito fraquinho para os insultos que já foram sussurrados desde o último parágrafo), aproveitaram estes dias para espalhar a sua fé e doutrina ao máximo. Mas estes conseguiram chegar a um absurdo maior do que comer pão e chamar-lhe canibalismo – se o natal não é sobre Jesus ou outra religião e não é sobre as prendas (porque admitir que o consumismo sabe muito bem é pecado para o culto do racionalismo), é sobre o quê? Estar com a família? As reuniões de família precisam de razão, seja um morto em cima da mesa ou um novo casal que decidiu transfigurar avultados fundos em comida, alianças e um DJ para passar bailaricos. Safam-se as famílias com crianças pequenas, que dão ao natal um significado maravilhoso, fazê-las passar por parvas porque acreditam num gordo rico, imortal e muito rápido. Mas esses não estão no facebook a dizer porcarias porque precisam de percorrer meio país à procura de um gormiti qualquer. Os que dizem aos filhos que o pai natal não existe, esses já estão no facebook a demonstrar a sua superioridade em relação aos outros pais burros que gostam de coisas mundanas como “diversão”. Se o Natal não tem significado, importam-se de estar calados e de ficarem em casa a fazer saladas?

O meu natal foi fantástico como sempre. Desta vez foi passado num lar, cof, perdoem-me, num “resort sénior” (não é pelo nome pomposo que não cheira a pregas faciais mal lavadas), onde comi uma óptima refeição. Falei com a minha família sobre temas tão interessantes como nada, nada e até coisa alguma. Bebi para esquecer que cada vez que abria a boca era interrompido e o menino jesus não me deixou nada no sapatinho porque a) sou herege; b) o puto acabou de nascer e já tem que estar a fazer favores. Ainda me deram algumas prendas decentes mas este ano nem embrulhadas foram. O pai natal deve estar com gripe.

Um santo natal para mim, que se há inferno eu espero já ter merecido um condomínio privado. E um bom natal atrasado para as pessoas que precisam muito que o diga, senão ressentem-se.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Vá para dentro lá fora

Não sei se ainda passa na televisão (porque oh sou tão superior à TV) mas lembram-se daquele slogan ranhoso do ministério do turismo, "vá para fora cá dentro"? Parece que agora a tradição é a contrária!

"Oh não, lá vem mais um palhaço a falar sobre a emigração"

Concedo que sou um palhaço (neste tempo frio até me gabo de um nariz vermelho) mas sim, vou falar do que é emigrar e do que poderá ser a curto prazo um caminho que vou ter que seguir. Porquê? Porque da mesma forma que penso que ainda não se apurou a trágica dimensão deste incentivo mascarado à migração, a maioria das pessoas que falam à boca cheia sobre "votar com os pés" não entende os problemas que isso acarreta.

Quem decide realmente tirar os pés de Portugal não o faz de ânimo leve na maioria dos casos. A vida é repleta de escolhas e de relações custo-benefício. Tirar uma holding de Portugal para outro país não é uma escolha propriamente difícil. É ficar e ser violado repetidamente pelos impostos ou sair e ser tratado de uma forma mais digna. Mas uma pessoa não é uma holding, é um organismo inserido numa família, numa comunidade, que tem que abandonar mais ou menos fontes de prazer e de segurança para ir para um local onde as recompensas são maiores mas os riscos também. Depende muito de quem temos à frente mas em regra geral não existem muitos "batmans" ou "max payne", que não têm nada a perder em abandonar tudo.

O que é que isto nos diz? Bom, isto diz que a tendência cada vez maior de abandonar o país é reflexo de uma relação custo-benefício cada vez mais marcada, privilegiando a recompensa e pondo os custos em segundo-plano. O que é ficar em Portugal hoje para o jovem comum?

É provavelmente estar sem emprego. As oportunidades não abundam e trabalhar sai muito caro ao empregador. Quando ainda vai havendo empregador... um senhor chamado Cavaco Silva vai muitas vezes à televisão (só sei porque me contaram) e ao facebook apoiar os jovens investidores... mas o que os jovens investidores precisam é de um bom psiquiatra para cuidar da psicose. Quem é o alucinado que abre uma empresa neste país para ser drenado em impostos, produzir caríssimo devido a mil regulações e no fim não encontrar um mercado interno porque os governos sucessivos trataram de dizimar o poder económico das pessoas? Não é preciso ser um génio para olhar para os números de falências. Só abrem empresas os alucinados ou aqueles que têm a oportunidade de entrar no jogo dos monopólios estatais.

É ter a certeza que reforma é uma palavra que se aplica a eventos burocráticos do tentacular estado. Nada tem a ver com aposentação. Reforma é o que se faz à educação para dar a impressão de que existe um esforço para tratar das crianças, é o que se faz na saúde quando um ministro quer que algo funcione de outra forma (não tem que funcionar bem, apenas diferente). Os jovens não devem preocupar-se com as suas reformas... até porque não as vão ter. Aqueles descontos para a SS são o oxigénio que vai segurando o paciente com cancro do pulmão. Todos sabem o que lhe vai acontecer no final...e não é uma cura miraculosa.

Quando no passado ainda havia a oportunidade de esperar, hoje o jovem não se sente bem em casa com um ou dois pais desempregados. Tem que ir ganhar o seu pão. Se não é aqui tem que ser noutro lado.

Estes problemas vão atingindo as pessoas de forma gradual. O difícil é "cada vez mais difícil", um limite a tender para o impossível. A juventude mais ou menos formada que sai hoje de Portugal é desenraízada e substituída por imigrantes de países ainda piores que o nosso. Os que chegam cá não são portugueses. Os nossos emigrantes, quando voltarem nas férias, não vão encontrar Portugal como o deixaram. Vão ver uma colónia de outro país qualquer, vão ver uma amálgama que de portuguesa só tem os seus pais, e nem isso quando eles morrerem. E aí até os nossos "portugueses no estrangeiro" vão deixar de o ser, deixam de ter nacionalidade e passam apenas a ter passaporte de uma terra.

O "estado", ou seja, o ideal socialista que tem sido aprovado continuamente pelo povo português, vai então ter o efeito catastrófico de se matar a ele próprio ao implodir com o Portugal que conhecemos. É um fenómeno possível, basta continuar neste caminho (e a federalização apenas vai ajudar). Nesse dia, no dia em que os portugueses forem uma malha que popula em pequenas concentrações alguns locais do mundo, estes podem começar a pensar como vão reclamar um pedaço de terra para estragar tudo de novo.

Por agora vou preocupar-me com a minha sobrevivência, este povo masoquista está em segundo ou terceiro plano. Se os que me são chegados quiserem tirar os pés da fogueira, que me comprem um bilhete que eu cá não fico!

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Quando a razão não chega, a gasolina arde melhor


Todos os dias eles controlam as nossas vidas. Convencem-nos que são vitais, que tratam dos nossos problemas, que precisamos deles e que sem a sua presença, não haveria ordem, seria a anarquia total, a lei do sujo, ruas intransitáveis e cada pessoa a tentar valer-se por si, sem amor ou atenção pelo vizinho.

A realidade é outra e as pessoas não a vêem. Resignadas, algumas contentes, levam o seu produto até eles, quase escravas. Escravas mesmo, uma escravidão da mente, oxalá um dia se apercebam. Até lá eles andarão felizes e contentes na rua, no meio dos seus rebanhos, sempre bem aperaltados, todos iguais, todos sorridentes. Entre o seu gado, estes pastores nunca terão medo. Cabe-nos a nós ensinar-lhes que ainda há quem lute contra os opressores.

Lutaremos até morrer. Lutaremos mesmo quando todos desistirem. Verão os nossos petardos rebentar nas vossas bocas, verão os pneus a arder no meio da estrada e as máscaras que ocultam os nossos rostos enraivecidos enquanto vamos buscar-vos, a vossas casas, diante do incapaz braço da polícia. E saberão que aí jaz a última paragem das vossas nojentas vidas.

Ver-vos-emos a arder e cantaremos hinos de liberdade. Não queimarão sozinhos, convosco arderão os vossos gordos companheiros, constantemente à procura das vossas sobras, pedindo sempre tratamento especial e incapacitando ainda mais as nossas vidas.

Não há polícia que pare o espírito do povo. Não há ordem tirânica que impeça o braço da justiça popular. Não dormirão descansados esta noite com o cintilar no fundo das colunas de fumo que se erguem no horizonte. Os mais pequenos são sempre os primeiros a cair. Mas os caixotes do lixo grandes ardem da mesma forma. E os ecopontos também… excepto o vidrão.

O povo não será livre enquanto houverem caixotes do lixo.

domingo, 11 de novembro de 2012

Produtividade vs Gatos

Em primeiro lugar quero expressar o meu espanto ao visitar este blog. Comecei por meter o título no google porque não fazia ideia do hosting que estava a usar (depois de tanta experiência com o wordpress, usar o blogger é como resolver física nuclear com uma criança com síndrome de Down que por acaso também está na casa de banho com gastroenterite). Foi espantoso como o Cavalo Colombo aparece como primeiro resultado na busca... mas presumo que tal se deve ao nome ser absurdo.

Oh gatinho! Não consegues fazer uma duckface!

Quando cá chego deparo-me com textos que não fazia ideia de ter escrito e a data infame de junho, o último post. Talvez mude o blog de localização... mas isso implicava alterar uma alocação de tempo em que estaria a ver gatos.


Adiante com coisas (igualmente não) importantes,

Deixo a questão, alguém se lembra da internet antes dos gatos? Eu não. Já pensei em procurar mas (obviamente) acabei num site de gatos... ou de corgis (que são o equivalente canino de gatos pouco asseados). 

Se me tento lembrar de algo antes deste fenómeno que impulsionou a falta de produtividade para níveis soviéticos, apenas me ocorre o farmville. E ainda assim esse fantástico jogo (e pensem em mim a falar num tom de voz superior porque nunca joguei) ainda requeria algum planeamento, alguma interacção. Ainda existia algum resultado! Era uma grande empreitada... para construir uma quinta... virtual... no facebook. Era uma vergonha... mas com produto final.

E os gatos são piores. São horas perdidas entre scottish folds, maine coons, british short furs, golden shaded persians, a navegar sem verdadeira direcção, ovários e festa (tanto em homens como mulheres). Não me refiro a festa como um aniversário de delegados de informação médica, antes uma celebração nacional mexicana, com confetis, animais em espetos, fogo de artifício a rebentar no ar e nas mãos. É tão grande a excitação das gónadas femininas que nem sequer se dá a ovulação, porque pode estar frio nas trompas e então é melhor o oócito levar um casaco ou ficar em casa.

Hoje decidi aprender a programar para o Android. Em parte para desenvolver programas que sejam incompatíveis com o iphone, em parte por...não, é mesmo só por isso. Mas a minha tarde foi absorvida a partilhar a experiência da minha namorada, a ver gatos a sentarem-se em coisas e a serem inaptos a realizar tarefas humanas.

Pela falta de produtividade de hoje, amanhã não vou poder gozar com os meus colegas detentores de spawn do Steve Jobs.

...mas ao menos vi gatos... talvez no meu futuro isso seja importante.


Concluíndo muito mal (porque não sei bem onde deixar esta peça de informação fundamental), penso que as duas grandes prioridades da ONU deveriam ser

a) gatos;
b) a Internet... como meio de distribuição de fotos de gatos.

Ah... e vão aqui: Mythic Bells
Divirtam-se!

terça-feira, 19 de junho de 2012

Se eu te bato é só porque gosto de ti

Jesus Cristo ficaria orgulhoso de nós!
(Quando me referir a médicos estou a tratar da maioria e não de algumas excepções que não fazem diagnósticos diferenciais quando uma tosta sai queimada)

É o lema de todos os pais que gostam de assentar a mão (ou o cinto) nos filhos. É assim que se corrigem os erros na educação, com reforço pavloviano. Talvez às vezes funcione. Neste caso não vai funcionar.

Para quem não sabe, vai haver uma greve dos médicos no mês de Julho. Para quem não sabe porquê, existe a causa principal e as justificações. Segundo as notícias, ao mesmo tempo que cessam os novos contractos na função pública médica, o ministro da saúde decidiu contratar uns quantos milhões de horas para tapar buracos nos hospitais: para atender doentes indiferenciados nas várias situações que o justifiquem. Isto ao mais baixo preço. Os médicos queixam-se, não admira. Afinal de contas aquela ideia de obrigar o mundo todo a fazer contracto é só válida para quem não pertence ao SNS? Um médico quer a sua estabilidade!
Tudo bem até aqui, aliás, eu até concordo que o esquema é uma palhaçada. Mas onde acabam os factos começa a burrice, burrice constatada nas conversas de café e nos grupos do facebook que tenho visitado.
Os profissionais de saúde têm sido vitimizados pelas paralisações dos transportes públicos. Felizmente são melhores que os maquinistas, eles estudaram mais, eles têm uma ética (dá-se no 5º ano e é obrigatório passar). Os médicos quando fazem greve não prejudicam as pessoas! Sim, não estou a brincar, há quem tenha dito isto. Mais que um! E não eram psiquiatras! Quando fazem greve existem serviços mínimos na mesma, o equivalente ao hospital de fim-de-semana. Ninguém fica por tratar… isto se for urgente. Pelos vistos para alguns médicos o facto das pessoas de 2 dias terem a consulta adiada sabe-se lá para quando não é problema nenhum. Não é urgente, urgente é lutar pela dignidade da profissão. Ao menos os maquinistas não mentem a eles próprios…

Quando o monge da saúde toma a bata branca abdica de toda a sua vida. Ou pelo menos alguns colegas de profissão assim pensam, que passam sempre a pôr a saúde dos doentes em primeiro lugar. É um ideal bonito. E é por isso que quando os médicos fizerem greve, estarão a fazê-la pela saúde das pessoas! Não tem nada a ver com interesse pessoal! As pessoas não podem passar com esquemas económicos de redução de despesas que comprometem tão francamente a qualidade de saúde. O objectivo do estado é literalmente contratar pessoas pouco qualificadas, sem especialização. A pergunta que uma pessoa normal (presumidamente com senso comum) faria a seguir é “e o que fazem os estudantes durante 6 anos que no fim ainda não são capazes de fazer urgência básica?”. Eu não sei responder a essa pergunta. Possivelmente terá a ver com o tempo que se perde em coisas como
- Introdução à medicina
- Medicina preventiva
- Ética
- Medicina Geral e Familiar
- Aulas de 2 horas sobre lavar as mãos

…que poderiam ser tratados em 1/10 do tempo, deixando mais para o importante. Eu pessoalmente sou da opinião que quando uma pessoa tira um curso de 6 anos era interessante ter alguma saída directa para o mercado que não fosse “saúde 24” e “call center da tmn”. Mas isto sou só eu.
Continuando, os médicos então fazem greve para precaver o futuro dos utentes. Belo. Porque se fizerem, o ministro vai encontrar dinheiro debaixo da cama para pagar as contas que o SNS anda a fazer. E porque vai ter todo o interesse em fazê-lo. Ou então não. A greve dos maquinistas, ao contrário da greve dos médicos, chama a atenção. As pessoas não podem ir trabalhar, não têm mobilidade, as estradas escorrem carros por todas as saídas, milhares de vidas são infernizadas e a popularidade governamental sofre com isso. Se os professores fazem greve há 30 pais por professor que não sabem o que fazer com os filhos, estão parados a vê-los atrasarem-se no programa e darem cabo do futuro. Quando o Santa Maria não fizer consultas durante dois dias quem vai dar por isso? Talvez uns 15 doentes por médico. Vão ter que remarcar, esperar mais um pouco, vão apanhar o metro de volta ao trabalho enquanto dizem que é “uma maçada”. Se estiverem mesmo doentes vão ter urgência na mesma. Uma semi-paralização médica é uma chatice, mas se o metro está fechado é um escândalo. E o senhor Macedo vai ligar a isso? Claro que sim! Era feio se não fosse dizer à televisão que vai tentar acomodar os “nossos” interesses o melhor possível. Vai ser evasivo e vai ficar tudo na mesma. Se a greve raramente funciona para os maquinistas, então para os médicos vai ser tão eficaz como a pílula de açúcar.

Mas ai de quem diga isto! Aliás, umas pessoas disseram isto. A “classe médica” revelou então a sua classe enchendo os pulmões de falácias lógicas e arremessando-as como vómitos explosivos. Tiros a torto e a direito mas saliento os dois melhores, o “tu não és médico, não percebes nada de saúde” e o “tu és muito novo para perceber o que é a luta de um trabalhador”. Já que o primeiro foi lançado a um economista doutorado, entende-se. Afinal de contas os raciocínios que eu aqui apresentei estão errados nitidamente, nunca foram provados pela experiência e são desprovidos de base lógica. Visto que o economista também os apresentou mas não sabe o peso de uma bata branca de algodão e fibra sintética, não sabe do que fala. A saúde não gasta dinheiro, metem-se miminhos no chão e a árvore das patacas deixa cair cateteres e máquinas de tomografia. Outros incultos, entre ciências políticas e engenharia são igualmente incapazes de perceber as necessidades do SNS. E aquele tipo que tinha menos que 20 anos? Então, esse não sabia nada do que é trabalhar! É preciso respeitar os mais velhos, com mais experiência. Por isso é que eu oiço sempre a minha avó quando diz que as queimaduras se tratam com manteiga. Quem está debaixo da árvore tem a visão completa das do topo. Aqueles tipos que ali vão a passar de helicóptero deviam estar calados.

Resto eu, um parvo inculto que não sabe nada da vida, a ovelha negra dos estudantes de medicina, que sabe-se lá como passou nas entrevistas inexistentes de admissão à faculdade, diabo sem uma réstia de compaixão. Eu sou ignorado, para ser insultado na privacidade das casas de médico. E eu sou aquele que pede desculpa.

Peço então desculpa a todos os que foram insultados pelos médicos por não partilharem dos seus ideais paladinos. Peço também a todo o profissional de saúde que contemple o problema pelo que realmente é: as estruturas governamentais nunca podem oferecer confiança; a saúde não fica mais barata graças ao SNS, só fica mais cara e pior.

E àqueles que pensam em vir chatear com o sistema privado dos EUA, não existe sistema privado nos EUA, existe um sistema em que o governo oferece monopólio às seguradoras, cria estruturas que aumentam artificialmente o preço da saúde e mais de metade da população está abrangida por um plano de saúde público (efectivamente mais uma vez não se pode confiar no governo). Procurem antes outro país para dar maus exemplos.