domingo, 8 de setembro de 2013
10 medidas “fassistas” para combater a obesidade
sábado, 27 de julho de 2013
O padre que deixou de acreditar em Deus
Não há nada de científico na fé, quero dizer, ninguém tem fé em Deus (maiúscula por respeito aos amigos católicos) porque leram uma revisão sistemática ou uma meta-análise de estudos científicos publicadas em revistas conceituadas. Se um padre deixa de acreditar em Deus, apesar de caso grave e das possíveis consequências laborais, não podemos inferir que não volte a crer. Num aperto até um ateu ferrenho contempla a opção de rezar, mesmo que a ponha de lado no minuto seguinte.
O caso não é tão simples quando não falamos de uma religião mas numa corrente filosófica. Um homem crê numa certa linha de pensamento dada uma certa lógica, que quando quebrada não tem forma de se reconstruir. Se forem apresentados dados suficientemente convincentes e mais coerentes que os vigentes, pressupondo uma mentalidade que ainda não cristalizou, a probabilidade é baixa que o prevaricador volte ao mesmo caminho depois de o abandonar.
Exagere-se o caso e imagine-se que Freud era ressuscitado e deixava de acreditar em tudo o que disse anteriormente. Como faria ele para se divorciar da psicanálise? O que faria ele com os milhares de seguidores no mundo? O mais provável é que estes o chamassem de maluco, nem todas as mentes estão abertas à mudança, mesmo aquelas que o estão não trilharam o mesmo caminho que ele e como tal não tiveram tempo de atingir as mesmas conclusões ou de assimilá-las correctamente. Como se sentiria Freud no seu círculo de amigos psicanalistas? Um inimigo? Ostracizado?
Restam duas opções: a fraude ou a honestidade. Custa a crer que muitos padres e Freuds tivessem a coragem e sacrifício para virar as costas a tudo o que construíram.
Felizmente eu não sou Freud, não sou padre, não vou desapontar milhares de psicanalistas e não passei a ser satânico ou a acreditar na teoria dos humores.
Estou só à procura das palavras certas para a minha carta de meia despedida.
sábado, 6 de abril de 2013
O problema dos comediantes são as cascas de ovo no chão
quinta-feira, 14 de março de 2013
Erro médico
Chovia intensamente no estacionamento do hospital. Manolo olhou novamente para o relógio e suspirou. Há quinze minutos que se tentava recompor sem qualquer sucesso. Os seus membros jaziam como mortos na marquesa que tinha roubado no consultório. Duas poças formavam-se atrás das orelhas, lágrimas de culpa do que tinha feito. Sim, o dia já se tinha alongado infinitamente, as enfermeiras não paravam de o chatear e interromper com perguntas de doentes que aguardavam na sala de espera. Todo o sistema tinha falhado mas não compreendia a leveza como o podiam interromper enquanto ele tinha uma agulha nas costas da doente, penetrando até ao espaço subaracnoídeu.
Manolo arrastou as pernas para o lado, que tombaram desamparadamente, e numa tentativa de se levantar finalmente acabou com a face entre as coxas. Os pensamentos fugiam num frenesim de hora de ponta, ele tinha que se controlar. Respirou fundo e recapitulou os momentos anteriores. Tinha coberto o banco da sua nova colega, inimaginavelmente impreparado para dar cuidados de saúde numa instituição completamente desconhecida. Tinha tomado a doente dela para lhe administrar uma injecção intratecal. Tudo parecia ter corrido bem, os lotes correspondiam ao doente. Só segundos mais tarde se apercebeu que a seringa continha vincristina. Anos de estudo de medicina tinham-no preparado para um momento como este, sem falar sequer do internato de oncologia. E sem sequer levantar um mínimo de suspeita, o erro tinha sido cometido, pelas mãos dele. Roberta, de 27 anos, casada e com um filho, vítima do maior erro da sua carreira. A injecção intratecal de vincristina provocar-lhe-ia muito provavelmente a morte. Sem qualquer desculpa ele não tinha visto o rosto do processo, não tinha notado que ela era de Miranda do Douro. E foi ainda sentado e debruçado nas costas de Roberta que a enfermeira lhe fez notar a folha de rosto e nesse ponto ele conseguia rever a pior sensação da sua vida, como se o seu estômago tivesse sido arrancado pelas costas por uma goma de ursinho da Haribo®. Não tinha matado uma pessoa, tinha condenado um hospital inteiro… se os militares conseguissem impedir mais carnificina. Em poucos segundos Roberta tornou-se num réptil gigante, uma patada depois o mundo havia escurecido o que o trazia ao ponto em que havia ficado.
Limpou as lágrimas e levantou-se. O cenário era aterrador, como ficar numa festa preso a falar com uma pessoa que trouxe o iPad. O piso do gabinete, branco e frio, contrastava com o sangue e os corpos da enfermeira e do estagiário que o tinham acompanhado. Os seus corpos cortados em filetes lembravam as embalagens de bifes do supermercado, bonitos por cima, o lado negro, sangue e peças intragáveis por baixo. “Só falta a esponjinha”, pensou. Passando por cima deles saiu cautelosamente pelo buraco que outrora teria sido a porta, agora com o caixilho arrancado pela monstruosa cabeça da mirandaraptor. Nada na sua vida o tinha preparado para o que veria a seguir. O ar tornou-se irrespirável, um misto de areia e óleo Johnson. Cabos de rede faziam de cobras, escorregando pelas paredes e aterrando no chão e no corpo escamoso de Roberta. O sistema de apoio ao médico tinha sobreaquecido novamente e o ar condicionado, entupido em teias de aranha que as empregadas insistiam em deixar por pensar trazerem-lhes dinheiro e pseudomonas, não tinha sido suficiente. A sala de informática explodiu, num caos de figuras de anime, óculos de massa e respectivos informáticos, lubrificante barato e colecções pornográficas japonesas. A pobre e mortífera mirandaraptor tinha tido o segundo azar do dia ao passar no corredor no momento errado. Mas milhares de vidas foram assim poupados, além de todo o dinheiro necessário para mobilizar as forças armadas.
Anos mais tarde Manolo ainda se lembrava do caso, apesar de que agora substituíra a bata e estetoscópio por fato e gravata que usava como director e coçador profissional de micose. Todo o incidente lhe continuava a tirar noites de sono, noites perdidas a dar seminários a internos sobre como um erro do sistema informático (como constava nos relatórios oficiais) tinha custado a vida a uma doente, uma enfermeira e um interno, e como quase viu a sua vida perder-se frente à terrível e temível mirandaraptor.
Não cometam o mesmo erro que o Manolo. Exija que o seu consultório esteja afastado do departamento técnico de informática do seu hospital.
quinta-feira, 7 de março de 2013
Psy-ai-ai
quinta-feira, 27 de dezembro de 2012
É natal, venha a comida amarela e o egoísmo
Cada vez mais tenho vontade de criar uma religião. Por
várias razões: quero ter seguidores (é sempre uma coisa engraçada para escrever
nos cartões de visita), sinto que tenho uma capacidade de pensamento digressivo
suficiente para enfiar uns fulanos em vestes bizarras a fazerem coisas
estranhas e uma verborreia capaz de preencher um hardcover. E gostava um dia de
ver no facebook a igreja de [X] a reclamar o natal para a sua posse. Este foi
um natal de gentes egoístas que queriam o natal só para elas:quinta-feira, 13 de dezembro de 2012
Vá para dentro lá fora
Não sei se ainda passa na televisão (porque oh sou tão superior à TV) mas lembram-se daquele slogan ranhoso do ministério do turismo, "vá para fora cá dentro"? Parece que agora a tradição é a contrária!
"Oh não, lá vem mais um palhaço a falar sobre a emigração"
Concedo que sou um palhaço (neste tempo frio até me gabo de um nariz vermelho) mas sim, vou falar do que é emigrar e do que poderá ser a curto prazo um caminho que vou ter que seguir. Porquê? Porque da mesma forma que penso que ainda não se apurou a trágica dimensão deste incentivo mascarado à migração, a maioria das pessoas que falam à boca cheia sobre "votar com os pés" não entende os problemas que isso acarreta.
Quem decide realmente tirar os pés de Portugal não o faz de ânimo leve na maioria dos casos. A vida é repleta de escolhas e de relações custo-benefício. Tirar uma holding de Portugal para outro país não é uma escolha propriamente difícil. É ficar e ser violado repetidamente pelos impostos ou sair e ser tratado de uma forma mais digna. Mas uma pessoa não é uma holding, é um organismo inserido numa família, numa comunidade, que tem que abandonar mais ou menos fontes de prazer e de segurança para ir para um local onde as recompensas são maiores mas os riscos também. Depende muito de quem temos à frente mas em regra geral não existem muitos "batmans" ou "max payne", que não têm nada a perder em abandonar tudo.
O que é que isto nos diz? Bom, isto diz que a tendência cada vez maior de abandonar o país é reflexo de uma relação custo-benefício cada vez mais marcada, privilegiando a recompensa e pondo os custos em segundo-plano. O que é ficar em Portugal hoje para o jovem comum?
É provavelmente estar sem emprego. As oportunidades não abundam e trabalhar sai muito caro ao empregador. Quando ainda vai havendo empregador... um senhor chamado Cavaco Silva vai muitas vezes à televisão (só sei porque me contaram) e ao facebook apoiar os jovens investidores... mas o que os jovens investidores precisam é de um bom psiquiatra para cuidar da psicose. Quem é o alucinado que abre uma empresa neste país para ser drenado em impostos, produzir caríssimo devido a mil regulações e no fim não encontrar um mercado interno porque os governos sucessivos trataram de dizimar o poder económico das pessoas? Não é preciso ser um génio para olhar para os números de falências. Só abrem empresas os alucinados ou aqueles que têm a oportunidade de entrar no jogo dos monopólios estatais.
É ter a certeza que reforma é uma palavra que se aplica a eventos burocráticos do tentacular estado. Nada tem a ver com aposentação. Reforma é o que se faz à educação para dar a impressão de que existe um esforço para tratar das crianças, é o que se faz na saúde quando um ministro quer que algo funcione de outra forma (não tem que funcionar bem, apenas diferente). Os jovens não devem preocupar-se com as suas reformas... até porque não as vão ter. Aqueles descontos para a SS são o oxigénio que vai segurando o paciente com cancro do pulmão. Todos sabem o que lhe vai acontecer no final...e não é uma cura miraculosa.
Quando no passado ainda havia a oportunidade de esperar, hoje o jovem não se sente bem em casa com um ou dois pais desempregados. Tem que ir ganhar o seu pão. Se não é aqui tem que ser noutro lado.
Estes problemas vão atingindo as pessoas de forma gradual. O difícil é "cada vez mais difícil", um limite a tender para o impossível. A juventude mais ou menos formada que sai hoje de Portugal é desenraízada e substituída por imigrantes de países ainda piores que o nosso. Os que chegam cá não são portugueses. Os nossos emigrantes, quando voltarem nas férias, não vão encontrar Portugal como o deixaram. Vão ver uma colónia de outro país qualquer, vão ver uma amálgama que de portuguesa só tem os seus pais, e nem isso quando eles morrerem. E aí até os nossos "portugueses no estrangeiro" vão deixar de o ser, deixam de ter nacionalidade e passam apenas a ter passaporte de uma terra.
O "estado", ou seja, o ideal socialista que tem sido aprovado continuamente pelo povo português, vai então ter o efeito catastrófico de se matar a ele próprio ao implodir com o Portugal que conhecemos. É um fenómeno possível, basta continuar neste caminho (e a federalização apenas vai ajudar). Nesse dia, no dia em que os portugueses forem uma malha que popula em pequenas concentrações alguns locais do mundo, estes podem começar a pensar como vão reclamar um pedaço de terra para estragar tudo de novo.
Por agora vou preocupar-me com a minha sobrevivência, este povo masoquista está em segundo ou terceiro plano. Se os que me são chegados quiserem tirar os pés da fogueira, que me comprem um bilhete que eu cá não fico!