quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Das “pessoas felizes”

Existem pessoas que são felizes. E existem pessoas que são “felizes”. Todos nós conhecemos um punhado delas.

Pessoas que atingem tons de voz próximos do ultrassom, não indo abaixo de um falsete do Freddy Mercury numa situação mais séria. Que transformam qualquer discussão numa cefaleia, com um discurso de tal modo acéfalo, que poderia ser produzido por uma inteligência artificial programada numa caixinha de música ou uma box da Zon (a capacidade é semelhante).

Essas pessoas são especiais, tornando mais brilhante o dia de qualquer ser que entre em contacto com elas, devendo-se tal à patine de graxa que untam em tudo o que mexe e tenha o infeliz acidente de ficar preso na mesma sala que elas. Mas também são especiais do mesmo modo que as crianças e os declaradamente infradotados o são. São “especiais”.

As criaturas “felizes” não medem habitualmente as palavras, espalhando o seu charme indiscriminadamente, seja a discutir secreções nasais esverdeadas durante o almoço ou a forçar uma tertúlia com alguém que claramente não está nem esteve na última década disposto a discutir futilidades sem ser a troco de sexo.

A característica que mais me admira nessas pessoas não é tanto a sua crónica alegria (a que faço alergia) ou a vaga sensação de que o seu espaço intracraniano não tem beneficiado das más políticas de arrendamento em Lisboa. É a sua honesta e abrangente falta de noção. São os entes que entram numa sala em silêncio e, não obstante o aspecto soturno da situação, começam a contar pormenores inúteis sobre os filhos. São os que olham para nós subsequentemente, esperando pelo nosso olhar aprovador como se a validação da forte escolha de tema para um metafórico funeral fosse substrato para o seu crescimento pessoal. São as que se imiscuem em temas de conversa que estão tão para lá da sua capacidade e conhecimento que o primeiro monossílabo introduzido no diálogo consegue provocar a ruptura de toda uma área da ciência ou filosofia.

Obrigado pessoas felizes por me estragarem o almoço.

domingo, 11 de dezembro de 2016

A minha namorada campónia que faz incursões de espiritismo numa mina

A minha namorada divide o seu dia entre a agropecuária e a protecção do nosso plano de existência das ameaças sobrenaturais. Enquanto escrevo isto ela está numa mina a combater fantasmas. À data, ninguém lhe agradeceu.

Após longos períodos de incerteza existencial, a trabalhar para uma firma que a desvalorizava enquanto criava conteúdo tecnológico questionável para consumo, decidiu abandonar a sua vida anterior e dedicar-se à quinta que o avô lhe deixou. Hoje é uma feroz entrepeneur, produzindo vegetais e derivados animais em grande escala (esquecendo que o metal no bolso priva outros agricultores do seu pão), feliz no seu trabalho de sol-a-sol, nem lembrando o tempo em que se queixava quando trabalhava 9 horas por dia em vez das 8 contratadas.

Hoje o seu dia é empenhado em jornadas taxativas intelectualmente, como procurar um vegetal específico para o qual há procura ou limpar mais um andar numa mina abandonada. Longe estão os dias de labuta ingrata, subjugada por um patronato que apenas lhe dava 22 dias úteis de férias. Férias é quando um homem quer! Mas como ela é mulher, as férias começam no velório.

Mas as 16 horas diárias de suave ceifar, cavar e expurgar não são o limite dos seus prazeres. Também se dá ao activismo político, advogando por uma loja de conveniência que escoa os seus produtos a preços inflacionados, demonizando o empresário de uma superfície de médio-porte que apenas tenta satisfazer as necessidades dos consumidores e ao fim do dia deixá-los com dinheiro suficiente no bolso para comprarem medicamentos ao usurário do médico da aldeia, que se comporta como um vendedor de água no deserto.

Eu? Eu só tenho vantagens com os seus novos amores. A polpa dos seus dedos deixou de ser áspera do incessante teclar, agora o contínuo calo que se tornou a sua palma tem uma suave acção esfoliante no meu dorso. Quando fazemos amor, sinto que estou conectado à mãe terra, mas dói um pouco quando se entranha no prepúcio. Os meus fetiches de necrofilia tornaram-se todos realidades, quando ela chega à noite sem energia, nem a respiração se nota. E as minhas noites são tranquilas, sabendo que os espíritos dos meus ente-queridos padeceram ao gume da sua espada em mais uma jornada para assaltar o solo dos seus minérios.

Minha querida namorada, não jogaste Stardew Valley suficiente por uma vida?

sábado, 19 de março de 2016

O dilema de Maria



O dia estava cinzento e corria uma brisa gelada quando a Maria se dirigiu à unidade de saúde do Estoril. Apesar do pesar que sentia no peito, sabia que a sua decisão era a mais correcta. Já sentia que algo de errado se passava com o seu filho Gonçalo há uns tempos. O seu desenvolvimento não estava a correr como esperado. Maria levou as mãos à barriga. O seu filho esperneava, como sempre.
Entre lábios semicerrados sussurrou, "em breve estarás calmo e tudo estará bem... vais descansar em paz"
Ordeiramente esperou pela sua vez, transpirando a senha na sua mão. A administrativa que a atendeu confirmou a sua consulta de saúde materna, não questionando mais, pressentindo que algo de errado se passava com este pequeno projecto de ser humano.
A consulta estava atrasada, estava sempre atrasada, mas eventualmente Maria foi chamada para o consultório da Dra. Joana. Esta, sempre muito amável, cumprimentou-a, fazendo uns minutos de conversa de circunstância, tentando quebrar o gelo. Mas a Maria mantinha o olhar soturno, até que a médica a questionou:
- O que se passa, dona Maria, parece que algo a está a preocupar.
Maria encheu o peito de ar e ganhou forças para verbalizar as suas angústias finalmente.
- Doutora, quero que me mande ao hospital para fazer um aborto.
A Dra. Joana tentou disfarçar mas os seus olhos tornaram-se redondos como azeitonas. Esta era uma situação com que nunca se tinha deparado, não era algo para o qual tivesse preparação. A formação para dar más notícias já era escassa, quanto mais a de recebê-las. Lembrando o seu treino em medicina geral e familiar, incitou a desenvolver a questão com uma pergunta aberta, "mas o que a leva a querer um aborto aos 13 anos de vida?"
- Eu noto que está algo de errado com o meu filho doutora, ele usa chapéus no topo da cabeça mas sem os colocar realmente, tem roupas desconexas, diz que não precisa da escola, só precisa de swag e que sai todos os dias com os amigos mas na verdade passa as tardes nos jogos online com eles. - maria não se conteve e começou a chorar silenciosamente, - ontem disse-me que quer ser jogador de futebol e que o wrestling é luta a sério. Custa-me muito isto doutora, mas percebo que ele tem uma malformação e que é preferível abortá-lo enquanto ele claramente não tem consciência do que deixá-lo crescer e deixá-lo vir a ter uma vida de sofrimento.
Por esta hora, o Gonçalo, que havia estado sentado na cadeira calmamente, empunhando o telemóvel e jogando Clash of Clans com o som no máximo, sem qualquer noção de etiqueta, começou a dar pontapés na secretária. A doutora perguntou-se se estaria a fazer treino de força para a sua brilhante carreira de futebolista. No entanto as suas capacidades de controle motor eram muito fracas, um claro défice neurológico. Não mostrava qualquer reacção aos estímulos verbais ou físicos quando Joana lhe tocava no ombro ou lhe pedia a opinião sobre o assunto que estava a ser tratado. Eram raras as mulheres que conseguiam seguir em frente com um aborto numa fase tão tardia da gestação, ela admirava a coragem desta mãe, sobretudo o humanismo de tentar poupar sofrimento ao filho, que nunca teria a capacidade de singrar na vida, nascendo a sua idade adulta para ficar permanentemente ligado ao suporte de vida da segurança social, nunca vindo a desenvolver meios para a sua autonomia.
Joana sorriu a Maria e disse:
- Compreendo os seus receios, é preferível agora, enquanto ele não tem qualquer consciência. Vou enviá-la novamente à maternidade, não devem tardar em contactá-la. Compreende a importância do seu pedido, terá ainda uns dias para pensar e acompanhamento psicológico. Não se esqueça de levar na consulta da maternidade o boletim de gravidez e o Gonçalo. O resto tratam eles.
A Maria acenou, sentindo-se ouvida, levantou-se e abraçou a sua médica. Não sentindo necessidade de prolongar excessivamente a consulta que já estava atrasada, não ofereceu resistência enquanto era dirigida à porta do consultório. Enquanto as duas mulheres trocavam o último olhar, Maria deixou Joana com uma questão retórica, - será que isto foi por eu ter visto tanto Big Brother durante a gravidez?
Anos mais tarde, o nome da doutora Joana era publicado na capa do New England Journal of Medicine como autora do estudo que relacionou a exposição repetida a reality-shows no 2º trimestre de gestação e as malformações neurológicas tardias do feto.

quarta-feira, 2 de março de 2016

terça-feira, 1 de março de 2016

sábado, 27 de fevereiro de 2016

A jornada do homem axialmente desafiado proveniente de um bairro da freguesia de Marvila

A viagem pela paisagem erodida de Arraiolos deixara o Anão de Chelas exausto. O seu elefante, Abreu, contorcia a tromba a cada passo, mais hesitante que o anterior. Era o final de uma tarde de verão, o sol encobria-se no horizonte, vermelho, anunciando que sangue havia sido derramado na China, segundo Legolas. A viagem pela A2, apesar de calma, era longa. Finalmente chegaram à estalagem. O Anão de Chelas, com a réstia de bom senso que possuía, ordenou Abreu a estacionar de marcha atrás perpendicular, entre uma zebra e um mata-velhos. Nunca se sabia o que reservaria a manhã seguinte e não podia adiar a jornada porque não conseguia manobrar Abreu de volta à estrada. Desmontou com dificuldade, fez-lhe uma festa na tromba e dirigiu-se à recepção.

A estalagem da Inatel abundava em odores geriátricos, desde a tradicional bola de naftalina ao distinto aroma de sebo de colarinho envelhecido em pele de pergaminho. A recepcionista era uma jovem, loira, sem mais nenhum traço discernível já que o balcão era bastante elevado e o anão não conseguia colocar os olhos acima dele. Conformando-se com a falta de acessibilidade, o anão de Chelas imaginou-a com uma grande prateleira.

“Minha senhora, queria um quarto para dormir esta noite, nada em particular ou com luxos excessivos dado que sou um anão de brandos costumes e paixões simples. Basta-me uma cama com uma janela, e se possível casa-de-banho privativa. Acessórios de mobilidade não são necessários de todo, já escalei as montanhas mais altas do país, não é um trono de porcelana que me vai parar. Queria também saber a oferta degustativa da estalagem, tanto para mim quanto para o meu elefante. Este está à porta e fez muitos quilómetros, merecendo manjar melhor que o meu, que apenas lhe puxei as orelhas ora para a esquerda, ora para a direita, orientando-o a bom destino. Queria saber se o parqueamento nesta zona é gratuita, o Abreu é claustrofóbico e não lhe faria bem nenhum passar a noite num parque de reboques da EMEL. Em suma, queria acomodação banal e a bom preço, com duas refeições quentes para não ter que ir ao intermarché.”

A recepcionista sorriu por detrás do balcão, respondendo “Queria? Já não quer?”

O anão deu um pequeno salto para olhar nos olhos da recepcionista, verificando, no cume da altura que conseguiu atingir, que afinal esta não era uma jovem loira mas sim um empregado de café de meia idade, gordo como uma pipa e com um bigode grisalho, untado desigualmente com farandol, de onde pendia metade de uma alheira. O choque tomou conta da sua mente, lembrando-o dos episódios em todas as tascas por onde havia passado na vida onde os mais diversos empregados de mesa, empunhando orgulhosamente um trapo de cozinha ao ombro, tinham feito troça da sua mensagem pela gramática empregue. Aqueles pequenos aterros de esquina onde debaixo da sombra e longe do olhar da ASAE se vendia o que coloquialmente se tratava por comida mas cuja realidade era díspar, eram na realidade campos de batalha onde os homens mostravam o seu valor ao manterem a sanidade e saírem da lá saciados por umas horas, até o conteúdo microbiano reclamar pelo espasmo gástrico e pela libertação esofágica. Estas memórias eram cicatrizes de guerra e os seus neurónios os soldados, já esgotados e com a esperança de voltar a casa. Um bom general não pede das suas tropas o que elas não podem dar, e assim pode contar com elas no dia seguinte.

Friamente o anão de Chelas retorquiu, “tem razão, agora já não quero”, virou costas e saiu. No final da mesma rua uma pequena residência de universitárias reluzia com a promessa de um leito e o aconchego do álcool.

sábado, 8 de novembro de 2014

Teclado novo, cavalo emagrecido

Saudações,

Já não escrevia neste blog há tanto tempo que tive dificuldade em encontrá-lo na internet. Com tantas páginas e mesmo assim consegui escrever um endereço que não vai dar a lado nenhum. Ao menos podia ter ido parar a um catálogo de noivas russas, mas custa-me a querer que se chama-se cavalocolombo.qualquercoisa.com,

Adiante.

Tenho um teclado novo. A maioria das pessoas não diria que isso são notícias dignas de um blog, que já por si é onde a informação não digna de assim ser chamada vai para morrer. Creio que assim é, mas para ser honesto quero exercitar os dedos e estou com tanto tema para escrita como o Nicholas Sparks (as piadas de morrerem pessoas com cancro nos livros dele ainda estão na moda?), e de qualquer forma estou suficientemente satisfeito para querer partilhar a minha experiência "transformadora".

O teclado em questão é um CoolerMaster blablabla TK. O que interessa é que utiliza botões Cherry MX (brown neste caso). Estes botões, ao contrário dos incluídos nos teclados que se compram com os trocos do fundo do bolso, dão uma experiência de escrita surreal.

Resumindo muito depressa do que falo, os botões (switches) mecânicos cherry MX foram feitos para durar, com uma vida útil de 50 milhões de clicks, entre 5 e 50 vezes os teclados normais e estão disponíveis em vários tipos, com funcionalidades distintas, entre o jogo, o teclar e o teclar enquanto se aborrece todas as pessoas num raio de 2km (cheery MX blue). Os brown são um compromisso simpático entre o teclar e o jogar, são suaves mas sente-se um pequeno ressalto quando a tecla é pressionada, dando feedback motor de quando o caracter é inserido.

Palavreado bonito que sai da boca de toda a gente que já comprou um, sendo que todas as outras pessoas vão ver os preços e rotulam-nos de loucos.

E provavelmente rotulam também de loucos os inúmeros detentores de iphones. A verdade é que estes teclados primam pela qualidade e a sensação que dão durante a escrita, uma certeza de que as teclas saem bem sem ter que olhar. São teclados para se escrever de olhos fechados.

A peculiaridade deste modelo em particular é que tem um layout US. Como tal, ao alterá-lo para PT tenho que ir buscar os acentos a sítios mais afastados que o costume, já para não falar que o "ç" corresponde à tecla dos dois pontos, apesar de estar no sítio do costume.

E depois olhei com um pouco mais de atenção. Este layout explica porque o html é um pesadelo de escrever. No US as teclas de símbolos estão todas separadas e permitem escrita mais simples, usando nada mais que o "shift", sem os contorcionismos motivados por combinações do ALT GR (a tecla do demo).

Possivelmente isto trará muitos benefícios às minhas extensas horas de programação, assim eu as retome.

Mas pelo menos já reavivou o cavalo.

Se tiver paciência faço o upload do resto dos textos que escrevi fora deste blog.

Boas noites se não nos virmos novamente antes do amanhecer.

(Este texto não foi alvo de qualquer word proofing. Amanhem-se)

domingo, 25 de maio de 2014

Parece que hoje houve eleições europeias

Prezo muito a minha família. São muito simpáticos e acredito sinceramente que sejam boas pessoas. Mas aparentemente a água deve estar contaminada nas suas casas porque começaram todos a votar à esquerda.

Esquerda? Sim. Não é invulgar, dado que os partidos com representação no parlamento são socialmente de esquerda, fiscalmente de esquerda ou tão de esquerda que praticamente guiam em contra-mão, praticamente todas as pessoas estão condenadas a votar à esquerda ou ficar a ver televisão.

Trato no entanto da esquerda que nem a esquerda convida para as festas. Aquela que não quer descansar até que toda a plebe tenha tudo aquilo que sempre quis, mesmo que isso implique que fique sem tudo aquilo para que trabalhou. O PCP, que tão pouco está ligado à realidade que nega pedaços da história tão grandes que se fossem fatias de bolo a minha mãe olhava para mim com vergonha. O BE, que tanto quanto sei mantém as tradições de sacrifícios de fetos. Que acredita que se as contas forem bem feitas, ainda sobra dinheiro no fim do orçamento para umas quantas operações de mudança de sexo.

Não trato do Livre porque pouco sei sobre esse partido excepto que poderia ser uma cópia do BE se este último tivesse algum conteúdo tangível. Hoje em dia os partidos de esquerda são simples de criar, é praticamente como base de mousse de chocolate da Alsa. Basta ir à rua buscar uns quantos piropos aos desempregados, desenvolvê-los e corrigir os erros gramaticais et voilá, sai mais uma caixinha nas urnas para dar a impressão de que as pessoas têm escolha. Voltando à minha família.

O que lhes escapa a compreensão, na minha tão pouco elucidada e terrivelmente encoberta por dias de sono a menos (obrigado medicina interna) mente, é que fiscalmente nenhum partido pós 25 de Abril foi responsável. Não admira, ser responsável implica automaticamente não ganhar eleições. Até o PSD e PP sabem disso, daí que tenhamos saído de um programa de ajustamento da dívida à realidade com ainda mais dívida do que aquela com que entrámos. A ideia de redistribuir fundos não meritocraticamente e de uma forma mais ou menos agressiva tende a terminar mal. A resposta? Pelos vistos é continuar no mesmo caminho.

Ainda poderia imaginar que o voto na esquerda era de um cariz social, mas fazer menção hoje a problemas da sociedade só serve para ir ao prós e contras debater com a parede. Trazer assuntos da sociedade para cima da mesa é veneno partidário, como tal os partidos todos escolhem tratar de temas mais relevantes como "o que raio anda o Sócrates a fazer nesta campanha?" (imagino que a provar que o mentiroso é património nacional).

Rezo para que se encontre uma cura rápida para este flagelo que aflige os meus consanguíneos. Até lá tomo consolo em lembrar que pelo menos a família é pequena e o impacto nacional é ínfimo.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Gritando a plenos pulmões no meio da selva


Para quem ainda não viu a mini-série da National Geographic “Going Ape”, recomendo vivamente a perder umas horas. O programa de entretenimento, distante do clássico documentário da selva, no entanto a milhas do da futilidade dos actuais shows sobre fugas da prisão, maníacos da sobrevivência e outras tantas categorias que mancharam a reputação deste canal, juntamente com a grelha dos canais Discovery (que contempla o TLC), retracta as semelhanças entre o Homem moderno e os nossos primos afastados, símios como o bonobo e o chimpanzé. A conclusão a que eu cheguei é que, apesar de mais bem vestida e subtil, a nossa espécie continua com os hábitos de antigamente, uma necessidade visceral de se enquadrar na sociedade, de se afirmar e, se possível, ser dominante.

E depois existem aqueles que atiram a subtileza toda pela janela fora.

Quem ouve música alta (não como os idosos a ver telenovelas mas como um bar cujo dono quer que as pessoas se vão embora) com as janelas abertas no último dia de Outubro, nitidamente não tem problemas auditivos nem obtém prazer de ter os tímpanos a sangrar. O objectivo é claramente mostrar a toda a praceta que “eu existo, eu estou aqui e têm todos que me aturar”, um grito de guerra para quem não tem outra forma de afirmação. Mas , ao contrário dos portugueses de antigamente (retratados nas histórias dos mais velhos, eu nunca cheguei a conhecê-los), que quando a pobreza bateu à porta não foram todos assaltar bancos ou velhinhas, quando a vida está tão mal ou tão bem que existe uma necessidade de exercer dominância nos demais, uns quantos encontram formas de libertar essa energia abrindo a janela antes das 9 da manhã e metendo a música mais monocórdica e aborrecida que encontraram no seu iphone (porque hoje em dia toda a gente tem iphones, começo a desconfiar que os distribuem na fila da segurança social). Outros, uma casta já praticamente desconhecida da linha de Sintra, cometem as atrocidades pós-modernas como subir na vida, subindo na carreira ou crescendo um negócio próprio e conseguindo famílias estáveis e saudáveis onde as crianças são obrigadas a manter a música baixa.

(foto "emprestada" de http://adamsapple15.blogspot.pt/2009_12_01_archive.html )

domingo, 8 de setembro de 2013

10 medidas “fassistas” para combater a obesidade


1. As portas do burger king e macdonalds são mais estreitas. Os terminais multibanco dos respectivos drive-thru têm acoplado um medidor de impedância que só permite efectuar pagamentos abaixo de um limiar de gordura corporal.

2. As barras que impedem a passagem de carrinhos de bebé nas escadas rolantes são alongadas até à altura do tórax. Quem não passa confortavelmente entre elas é obrigado a usar as escadas estáticas.

3. As pessoas apanhadas a usar “suplementos” depuradores e desintoxicantes são dirigidas até à esquadra mais próxima onde são obrigadas a consumir uma caixa de 50 filtros de café. Têm a opção de os ferver em água e acompanhar com bolachas de fibra sem sal (que basicamente é alpista).

4. Conta poupança compulsiva “O meu primeiro bypass coronário”.

5. Taxa de impacto gravitacional.

6. Todas as pessoas obesas são obrigadas a usar suspensórios.

7. Os empregados de buffets são pessoas que frequentam um ginásio há 3 anos regularmente, com um índice de massa gorda inferior a 10% e que só falam disso.

8. O acesso ao balcão dos gelados nos hipermercados faz-se por uma passadeira rolante em desnível.

9. As pizarias só têm take-away. Se o cliente demorar a ir buscar a piza, paga o dobro e só leva uma salada de frango.

10. Maratona anual para obesos. Realiza-se no campo, apenas em dias de chuva, os últimos 10% a chegar são obrigados a repetir no dia seguinte (onde se aplica novamente a regra dos 10%).

sábado, 27 de julho de 2013

O padre que deixou de acreditar em Deus


Não há nada de científico na fé, quero dizer, ninguém tem fé em Deus (maiúscula por respeito aos amigos católicos) porque leram uma revisão sistemática ou uma meta-análise de estudos científicos publicadas em revistas conceituadas. Se um padre deixa de acreditar em Deus, apesar de caso grave e das possíveis consequências laborais, não podemos inferir que não volte a crer. Num aperto até um ateu ferrenho contempla a opção de rezar, mesmo que a ponha de lado no minuto seguinte.

O caso não é tão simples quando não falamos de uma religião mas numa corrente filosófica. Um homem crê numa certa linha de pensamento dada uma certa lógica, que quando quebrada não tem forma de se reconstruir. Se forem apresentados dados suficientemente convincentes e mais coerentes que os vigentes, pressupondo uma mentalidade que ainda não cristalizou, a probabilidade é baixa que o prevaricador volte ao mesmo caminho depois de o abandonar.

Exagere-se o caso e imagine-se que Freud era ressuscitado e deixava de acreditar em tudo o que disse anteriormente. Como faria ele para se divorciar da psicanálise? O que faria ele com os milhares de seguidores no mundo? O mais provável é que estes o chamassem de maluco, nem todas as mentes estão abertas à mudança, mesmo aquelas que o estão não trilharam o mesmo caminho que ele e como tal não tiveram tempo de atingir as mesmas conclusões ou de assimilá-las correctamente. Como se sentiria Freud no seu círculo de amigos psicanalistas? Um inimigo? Ostracizado?

Restam duas opções: a fraude ou a honestidade. Custa a crer que muitos padres e Freuds tivessem a coragem e sacrifício para virar as costas a tudo o que construíram.

Felizmente eu não sou Freud, não sou padre, não vou desapontar milhares de psicanalistas e não passei a ser satânico ou a acreditar na teoria dos humores.

Estou só à procura das palavras certas para a minha carta de meia despedida.

sábado, 6 de abril de 2013

O problema dos comediantes são as cascas de ovo no chão

Há uns dias atrás uma amiga perguntou-me o que eu tinha contra os católicos para andar sempre a fazer piadas com eles e porque não me dedicava um pouco mais aos muçulmanos, por exemplo. A minha resposta imediata foi algo sobre o facto das minhas pretensões serem de chatear os amigos e dado que não tenho nenhuns que gostem de rezar em cima de tapetes e orientados geograficamente, acabo por fazer ênfase maior em cristãos. Mais tarde pus-me a pensar no assunto e reparei que o que disse, apesar de verdade, é apenas uma fracção da história. Afinal de contas porque se perderam as bonitas tradições de gozar com homossexuais, muçulmanos e tantas outras “minorias”? A resposta encontra-se no seio neoplásico, fibrosado e descaído da palavra “aceitável”.

O humor contempla o anormal, pelo menos quando não faz parte da rotina de stand-up de uma mulher que acha que a menstruação e toda a variedade de pensos e tampões são peça de comédia. Este facto acarreta sempre o risco de se ofender alguém, podendo na melhor das hipóteses terminar num nariz partido. Os comediantes profissionais defendem-se deste problema gozando com duas entidades principais: o próprio, como fazem o Alvim e o Nuno Markl, parodiando eternamente as suas próprias vidas como supostas criaturas de cave, virgens, pervertidas e cujas infâncias estão recheadas de inadequação; e personagens que podem ser gozadas por tal ser prática comum ou porque são tão inocentes que qualquer paródia está a anos luz de vestígios de verdade. Assim posso gozar comigo, com o Gandhi, o Obama, o Miguel Relvas, qualquer figura política e pouco mais sobra. A partir daí entramos no território perigoso mas ainda aí há diferentes gradações. Afinal de contas é diferente invadir Moscovo ou Paris. 

Gozar com a homossexualidade é possivelmente um dos maiores perigos para a ostracização imediata num grupo de amigos. Este é um grupo cujo policiamento do politicamente correcto é o sonho molhado do Salazar. Em todas as esquinas há um defensor do “bom nome” da homossexualidade. A razão para isso é enevoada, um misto de “não podemos reacender o ódio do passado” com um “gozar com minorias é feio” turbinado. Ainda se ouve o grande clássico do “tu é que estás inseguro da tua sexualidade” mas eu pergunto quem é que está inseguro aqui? Temos um grupo que não admite a sua fuga à normalidade, uma normalidade manifestamente óbvia dada a impossibilidade de partos por via rectal, que passa metade da vida a lutar pelo direito de serem iguais aos outros (o que é bizarro porque a outra metade é passada a exaltar as suas diferenças) e que não aguenta quando alguém comenta sarcasticamente a sua cultura ou a exagera. Não, um comediante que se atreva a referir os gostos afeminados de uma porção de homossexuais passa 9 em cada 10 vezes por homofóbico, o que corresponde a ser chamado de feiticeiro pela inquisição. Dispensa-se a fogueira, há outras formas de arruinarem vidas. Também não entendo bem o problema da palavra homofóbico, ficava muito mais preocupado se me chamassem homofílico. 

Ser muçulmano nos dias que correm tem os seus pontos altos e baixos. Acredito que seja aborrecido ter os olhos dos outros em cima nos transportes públicos e fazerem-lhes uma colonoscopia antes de os deixar entrar num avião, no entanto há que sentir um orgulho especial pela cultura de medo e opressão que geraram nos povos europeus, aquelas gentes que conquistaram e inventaram a grande maioria do que é hoje a vida para posteriormente invaginarem qualquer vestígio de pénis e converterem-se à religião de dar a outra face para comer mais um par de estalos do resto do mundo. Com um medo tão enraizado que eu me pergunto se o que escrevi até agora me garante uma ameaça de morte, quem precisa de lápis azul? 

Os católicos por outro lado são uns “curtidos”. São europeus por um lado, portanto estão já bem embebidos no sentimento de culpa sem objecto para se manterem no silêncio. Espalharam a fé à lei da espada pelo mundo todo, o que garante uma suposta dívida ad eternum ao resto da humanidade. E apesar de algumas semelhanças, o menino Jesus, que diferencia o cristianismo das outras religiões com maior ênfase na parte em que deus manda com os projectos todos da secretária para o chão e começa de novo, certifica-se que o cristão dos dias de hoje há-de ser espancado, atropelado e violado antes de levantar a voz. No fim, enquanto limpa o metafórico rabo murmura que as contas serão repostas no além. O cristão dos dias de ontem, que pregava a miséria e humildade enquanto regia a Europa com punho de ferro e amansava os aborígenes, tinha a dose de hipocrisia necessária para ignorar o que dizia e fazer correr sangue se fosse necessário. O cristão de hoje não beneficia da aura de medo do muçulmano ou das ondas de indignação, sentimento de ofensa e outras crises de histeria características de grupos como os homossexuais, judeus e outras religiões e cultos que tendem a lançar processos quando são feitas piadas à sua custa. 

Mas isso é bom? Nim. 

Por um lado eu dou-me com cristãos, são pessoas que aparte da crença numa entidade superior porque ouviram falar disso, são absolutamente normais e como tal, uma porção é compatível para amizades comigo. Infelizmente sofrem com a minha língua solta. No entanto, quando deparado com as “minorias” cronicamente vitimizadas uma pessoa passa conversas inteiras medindo as palavras e perguntando-se se vai inadvertidamente ofender alguma sensibilidade. Uma boa regra para escolher amigos é o teste hipotético “se me poderia embebedar à frente deles”. E nenhuma Maria Amélia vitimizada, seja feminista, judia, vegan, muçulmana ou outras que excluí da lista propositadamente por medo pela vida e carreira, alguma vez será capaz de o passar. 

A escola do politicamente correcto terá um fim na europa eventualmente, seja porque os europeus se cansaram dos seus efeitos nefastos, seja porque morreram todos graças a estes. Todos os dias ao fazer piadas ou deixar de as fazer, sente-se inquietação pelo censurado e o auto-censurado. E no dia em que a inquietação dê lugar ao “que se lixe”, irá acabar este longo processo de discriminação positiva e talvez eu possa cá vir fazer piadas sobre tipos de tecido e tapetes de reza. 

Até lá o melhor que posso dar é a virgem Nicki Minaj e o kid Jesus cheio de swagga.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Erro médico

Chovia intensamente no estacionamento do hospital. Manolo olhou novamente para o relógio e suspirou. Há quinze minutos que se tentava recompor sem qualquer sucesso. Os seus membros jaziam como mortos na marquesa que tinha roubado no consultório. Duas poças formavam-se atrás das orelhas, lágrimas de culpa do que tinha feito. Sim, o dia já se tinha alongado infinitamente, as enfermeiras não paravam de o chatear e interromper com perguntas de doentes que aguardavam na sala de espera. Todo o sistema tinha falhado mas não compreendia a leveza como o podiam interromper enquanto ele tinha uma agulha nas costas da doente, penetrando até ao espaço subaracnoídeu.

Manolo arrastou as pernas para o lado, que tombaram desamparadamente, e numa tentativa de se levantar finalmente acabou com a face entre as coxas. Os pensamentos fugiam num frenesim de hora de ponta, ele tinha que se controlar. Respirou fundo e recapitulou os momentos anteriores. Tinha coberto o banco da sua nova colega, inimaginavelmente impreparado para dar cuidados de saúde numa instituição completamente desconhecida. Tinha tomado a doente dela para lhe administrar uma injecção intratecal. Tudo parecia ter corrido bem, os lotes correspondiam ao doente. Só segundos mais tarde se apercebeu que a seringa continha vincristina. Anos de estudo de medicina tinham-no preparado para um momento como este, sem falar sequer do internato de oncologia. E sem sequer levantar um mínimo de suspeita, o erro tinha sido cometido, pelas mãos dele. Roberta, de 27 anos, casada e com um filho, vítima do maior erro da sua carreira. A injecção intratecal de vincristina provocar-lhe-ia muito provavelmente a morte. Sem qualquer desculpa ele não tinha visto o rosto do processo, não tinha notado que ela era de Miranda do Douro. E foi ainda sentado e debruçado nas costas de Roberta que a enfermeira lhe fez notar a folha de rosto e nesse ponto ele conseguia rever a pior sensação da sua vida, como se o seu estômago tivesse sido arrancado pelas costas por uma goma de ursinho da Haribo®. Não tinha matado uma pessoa, tinha condenado um hospital inteiro… se os militares conseguissem impedir mais carnificina. Em poucos segundos Roberta tornou-se num réptil gigante, uma patada depois o mundo havia escurecido o que o trazia ao ponto em que havia ficado.

Limpou as lágrimas e levantou-se. O cenário era aterrador, como ficar numa festa preso a falar com uma pessoa que trouxe o iPad. O piso do gabinete, branco e frio, contrastava com o sangue e os corpos da enfermeira e do estagiário que o tinham acompanhado. Os seus corpos cortados em filetes lembravam as embalagens de bifes do supermercado, bonitos por cima, o lado negro, sangue e peças intragáveis por baixo. “Só falta a esponjinha”, pensou. Passando por cima deles saiu cautelosamente pelo buraco que outrora teria sido a porta, agora com o caixilho arrancado pela monstruosa cabeça da mirandaraptor. Nada na sua vida o tinha preparado para o que veria a seguir. O ar tornou-se irrespirável, um misto de areia e óleo Johnson. Cabos de rede faziam de cobras, escorregando pelas paredes e aterrando no chão e no corpo escamoso de Roberta. O sistema de apoio ao médico tinha sobreaquecido novamente e o ar condicionado, entupido em teias de aranha que as empregadas insistiam em deixar por pensar trazerem-lhes dinheiro e pseudomonas, não tinha sido suficiente. A sala de informática explodiu, num caos de figuras de anime, óculos de massa e respectivos informáticos, lubrificante barato e colecções pornográficas japonesas. A pobre e mortífera mirandaraptor tinha tido o segundo azar do dia ao passar no corredor no momento errado. Mas milhares de vidas foram assim poupados, além de todo o dinheiro necessário para mobilizar as forças armadas.

Anos mais tarde Manolo ainda se lembrava do caso, apesar de que agora substituíra a bata e estetoscópio por fato e gravata que usava como director e coçador profissional de micose. Todo o incidente lhe continuava a tirar noites de sono, noites perdidas a dar seminários a internos sobre como um erro do sistema informático (como constava nos relatórios oficiais) tinha custado a vida a uma doente, uma enfermeira e um interno, e como quase viu a sua vida perder-se frente à terrível e temível mirandaraptor.

Não cometam o mesmo erro que o Manolo. Exija que o seu consultório esteja afastado do departamento técnico de informática do seu hospital.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Psy-ai-ai


Os meus gostos musicais são um tanto quanto peculiares mas vão a pouco e pouco encaixando numa certa forma igual à de tantos amigos meus: ouvir músicas “que os nossos pais ouviam” porque hoje em dia há a ideia de que cantar é algo que se faz com um sintetizador, implica o uso de um fedora e, no caso masculino, uma total ausência de genitália. No caso de uma mulher, cantar implica um videoclip porque a música é muito má a transmitir nudez (não que eu me importe muito com isso, mas a maior parte das vezes meto a televisão em mute para não me distrair).

Mas há dois estilos de que não me afasto muito: psytrance (e goatrance num grau talvez um pouco menor) e Jamiroquai. Sim, Jamiroquai é uma banda e não um estilo. Mas também há mais tablets no mercado e cada vez que mexo na minha em público vem um palhaço perguntar-me que iPad estou a usar. Não há ninguém como o Jami logo não faz sentido dar-lhe uma categoria.

Voltando ao psytrance.

O psytrance mantém-se relativamente fiel às suas origens e tem características que apelam, não ao homem moderno que tem coisas como necessidades emocionais e usa roupas que o tornam tão ágil como um hamburger no chão, nem ao homem indie, que faz graves reacções anafilácticas a tudo o que não tenha um filtro do instagram em cima, mas a uma espécie muito própria. O psytrance apela ao ouvido daqueles que querem ouvir música e não dormir, que querem ser produtivos e criativos, aos maníacos, aos que gostam de dançar mas não percebem porque a house music passou a ser um rap com uhn-tiss atrás. O psytrance não dá para utilizadores de smart-shops, é demasiado sincero e não tem intenções de pertencer ao grupinho.

Outro aspecto muito apelativo é que os artistas que produzem este tipo de música já sabem mexer em sintetizadores com a experiência devida. Todos eles sabem que qualquer fórmula matemática tem melhor voz que a nicki minaj, misturá-las é criar um híbrido que necessariamente será pior do que o som puro.

Isto são tudo opiniões que não exprimem com clareza porque gosto de psychadelic trance. Faço agora um pequeno exercício para tentar percebê-lo: Custa-me muito a integrar-me na sociedade actual, uma em que a maioria das pessoas toma uma decisão semi-informada de condenar uma cultura inteira ao fracasso e destruição a médio-longo prazo. Não sendo de todo uma comparação perfeitamente legítima, para mim e uma pequena mão cheia de pessoas, viver no mundo ocidental é como viver com cancro. Sobreviver neste mundo pitoresco implica uma dose cavalar (ha… cavalo colombo, sad pun) de sadomasoquismo. Há outra solução, a tristeza e a depressão, mas entrar nesse caminho é mais uma vez entrar no mágico mundo politicamente correcto da vitimização, a grande droga do século XXI. Fazer um luto por um fim incerto é tão absurdo como um matemático chorar porque não percebe como funciona uma fórmula que nunca ouviu falar. E é para mariquinhas.
Nesta conjuntura entra o psy-trance, a marcha triunfante em direcção a um horizonte tão animador como a sucursal dos correios mais perto de si! É uma música que oiço em direcção ao hospital quando sei que me esperam banhos de estatismo, quando estou a ver no facebook as novidades das mulheres polvilhando frases em helvética que nunca deviam ter visto a luz do dia e dos machos beta a defender a colectivização dos testículos para ver se lhes calha um na rifa. É a música que oiço enquanto escrevo e que me faz sorrir porque me lembra que a minha sanidade mental é tão estável como um copo de água na mão de um parkinsónico e que mais importante que passear do eu formal, criatura que fica muito bem de fato e gravata, para o campo da insanidade “saudável”, é saber o caminho, ir dormir a casa e voltar ao campo dos cogumelos quando é preciso.

E no fim escrever um texto de ~650 palavras e pensar que está espectacular porque estava era com atenção à música.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

É natal, venha a comida amarela e o egoísmo


Cada vez mais tenho vontade de criar uma religião. Por várias razões: quero ter seguidores (é sempre uma coisa engraçada para escrever nos cartões de visita), sinto que tenho uma capacidade de pensamento digressivo suficiente para enfiar uns fulanos em vestes bizarras a fazerem coisas estranhas e uma verborreia capaz de preencher um hardcover. E gostava um dia de ver no facebook a igreja de [X] a reclamar o natal para a sua posse. Este foi um natal de gentes egoístas que queriam o natal só para elas:


Os católicos estão cada vez mais assanhados, como grupo que exerce cada vez menos respeito no segmento populacional da religião do politicamente correcto, corrigem em demasia atirando o chavão de herege e derivados para tudo o que mexa e não esteja pregado a uma cruz. Dizer que o natal é católico ou cristão é absurdo, o natal é um dia e as massas vão dizendo o que simboliza esse dia. Há anos que simboliza prendas para todos. Hoje simboliza a comida amarela e a véspera dos saldos pós natalícios. Eles estão simplesmente aborrecidos porque perderam a luta dos pastores. Animem-se, há mais não sei quantos grupos da pecuária que perderam as ovelhas para os marxistas culturais. Ao menos vocês ainda têm roupas luzidias e muitas capelinhas para encher com idosos.

Os ateus bacocos também não se safaram da festa (e qualquer bom homem de religião faça o favor de me colocar neste grupo, apesar de que bacoco é muito fraquinho para os insultos que já foram sussurrados desde o último parágrafo), aproveitaram estes dias para espalhar a sua fé e doutrina ao máximo. Mas estes conseguiram chegar a um absurdo maior do que comer pão e chamar-lhe canibalismo – se o natal não é sobre Jesus ou outra religião e não é sobre as prendas (porque admitir que o consumismo sabe muito bem é pecado para o culto do racionalismo), é sobre o quê? Estar com a família? As reuniões de família precisam de razão, seja um morto em cima da mesa ou um novo casal que decidiu transfigurar avultados fundos em comida, alianças e um DJ para passar bailaricos. Safam-se as famílias com crianças pequenas, que dão ao natal um significado maravilhoso, fazê-las passar por parvas porque acreditam num gordo rico, imortal e muito rápido. Mas esses não estão no facebook a dizer porcarias porque precisam de percorrer meio país à procura de um gormiti qualquer. Os que dizem aos filhos que o pai natal não existe, esses já estão no facebook a demonstrar a sua superioridade em relação aos outros pais burros que gostam de coisas mundanas como “diversão”. Se o Natal não tem significado, importam-se de estar calados e de ficarem em casa a fazer saladas?

O meu natal foi fantástico como sempre. Desta vez foi passado num lar, cof, perdoem-me, num “resort sénior” (não é pelo nome pomposo que não cheira a pregas faciais mal lavadas), onde comi uma óptima refeição. Falei com a minha família sobre temas tão interessantes como nada, nada e até coisa alguma. Bebi para esquecer que cada vez que abria a boca era interrompido e o menino jesus não me deixou nada no sapatinho porque a) sou herege; b) o puto acabou de nascer e já tem que estar a fazer favores. Ainda me deram algumas prendas decentes mas este ano nem embrulhadas foram. O pai natal deve estar com gripe.

Um santo natal para mim, que se há inferno eu espero já ter merecido um condomínio privado. E um bom natal atrasado para as pessoas que precisam muito que o diga, senão ressentem-se.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Vá para dentro lá fora

Não sei se ainda passa na televisão (porque oh sou tão superior à TV) mas lembram-se daquele slogan ranhoso do ministério do turismo, "vá para fora cá dentro"? Parece que agora a tradição é a contrária!

"Oh não, lá vem mais um palhaço a falar sobre a emigração"

Concedo que sou um palhaço (neste tempo frio até me gabo de um nariz vermelho) mas sim, vou falar do que é emigrar e do que poderá ser a curto prazo um caminho que vou ter que seguir. Porquê? Porque da mesma forma que penso que ainda não se apurou a trágica dimensão deste incentivo mascarado à migração, a maioria das pessoas que falam à boca cheia sobre "votar com os pés" não entende os problemas que isso acarreta.

Quem decide realmente tirar os pés de Portugal não o faz de ânimo leve na maioria dos casos. A vida é repleta de escolhas e de relações custo-benefício. Tirar uma holding de Portugal para outro país não é uma escolha propriamente difícil. É ficar e ser violado repetidamente pelos impostos ou sair e ser tratado de uma forma mais digna. Mas uma pessoa não é uma holding, é um organismo inserido numa família, numa comunidade, que tem que abandonar mais ou menos fontes de prazer e de segurança para ir para um local onde as recompensas são maiores mas os riscos também. Depende muito de quem temos à frente mas em regra geral não existem muitos "batmans" ou "max payne", que não têm nada a perder em abandonar tudo.

O que é que isto nos diz? Bom, isto diz que a tendência cada vez maior de abandonar o país é reflexo de uma relação custo-benefício cada vez mais marcada, privilegiando a recompensa e pondo os custos em segundo-plano. O que é ficar em Portugal hoje para o jovem comum?

É provavelmente estar sem emprego. As oportunidades não abundam e trabalhar sai muito caro ao empregador. Quando ainda vai havendo empregador... um senhor chamado Cavaco Silva vai muitas vezes à televisão (só sei porque me contaram) e ao facebook apoiar os jovens investidores... mas o que os jovens investidores precisam é de um bom psiquiatra para cuidar da psicose. Quem é o alucinado que abre uma empresa neste país para ser drenado em impostos, produzir caríssimo devido a mil regulações e no fim não encontrar um mercado interno porque os governos sucessivos trataram de dizimar o poder económico das pessoas? Não é preciso ser um génio para olhar para os números de falências. Só abrem empresas os alucinados ou aqueles que têm a oportunidade de entrar no jogo dos monopólios estatais.

É ter a certeza que reforma é uma palavra que se aplica a eventos burocráticos do tentacular estado. Nada tem a ver com aposentação. Reforma é o que se faz à educação para dar a impressão de que existe um esforço para tratar das crianças, é o que se faz na saúde quando um ministro quer que algo funcione de outra forma (não tem que funcionar bem, apenas diferente). Os jovens não devem preocupar-se com as suas reformas... até porque não as vão ter. Aqueles descontos para a SS são o oxigénio que vai segurando o paciente com cancro do pulmão. Todos sabem o que lhe vai acontecer no final...e não é uma cura miraculosa.

Quando no passado ainda havia a oportunidade de esperar, hoje o jovem não se sente bem em casa com um ou dois pais desempregados. Tem que ir ganhar o seu pão. Se não é aqui tem que ser noutro lado.

Estes problemas vão atingindo as pessoas de forma gradual. O difícil é "cada vez mais difícil", um limite a tender para o impossível. A juventude mais ou menos formada que sai hoje de Portugal é desenraízada e substituída por imigrantes de países ainda piores que o nosso. Os que chegam cá não são portugueses. Os nossos emigrantes, quando voltarem nas férias, não vão encontrar Portugal como o deixaram. Vão ver uma colónia de outro país qualquer, vão ver uma amálgama que de portuguesa só tem os seus pais, e nem isso quando eles morrerem. E aí até os nossos "portugueses no estrangeiro" vão deixar de o ser, deixam de ter nacionalidade e passam apenas a ter passaporte de uma terra.

O "estado", ou seja, o ideal socialista que tem sido aprovado continuamente pelo povo português, vai então ter o efeito catastrófico de se matar a ele próprio ao implodir com o Portugal que conhecemos. É um fenómeno possível, basta continuar neste caminho (e a federalização apenas vai ajudar). Nesse dia, no dia em que os portugueses forem uma malha que popula em pequenas concentrações alguns locais do mundo, estes podem começar a pensar como vão reclamar um pedaço de terra para estragar tudo de novo.

Por agora vou preocupar-me com a minha sobrevivência, este povo masoquista está em segundo ou terceiro plano. Se os que me são chegados quiserem tirar os pés da fogueira, que me comprem um bilhete que eu cá não fico!

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Quando a razão não chega, a gasolina arde melhor


Todos os dias eles controlam as nossas vidas. Convencem-nos que são vitais, que tratam dos nossos problemas, que precisamos deles e que sem a sua presença, não haveria ordem, seria a anarquia total, a lei do sujo, ruas intransitáveis e cada pessoa a tentar valer-se por si, sem amor ou atenção pelo vizinho.

A realidade é outra e as pessoas não a vêem. Resignadas, algumas contentes, levam o seu produto até eles, quase escravas. Escravas mesmo, uma escravidão da mente, oxalá um dia se apercebam. Até lá eles andarão felizes e contentes na rua, no meio dos seus rebanhos, sempre bem aperaltados, todos iguais, todos sorridentes. Entre o seu gado, estes pastores nunca terão medo. Cabe-nos a nós ensinar-lhes que ainda há quem lute contra os opressores.

Lutaremos até morrer. Lutaremos mesmo quando todos desistirem. Verão os nossos petardos rebentar nas vossas bocas, verão os pneus a arder no meio da estrada e as máscaras que ocultam os nossos rostos enraivecidos enquanto vamos buscar-vos, a vossas casas, diante do incapaz braço da polícia. E saberão que aí jaz a última paragem das vossas nojentas vidas.

Ver-vos-emos a arder e cantaremos hinos de liberdade. Não queimarão sozinhos, convosco arderão os vossos gordos companheiros, constantemente à procura das vossas sobras, pedindo sempre tratamento especial e incapacitando ainda mais as nossas vidas.

Não há polícia que pare o espírito do povo. Não há ordem tirânica que impeça o braço da justiça popular. Não dormirão descansados esta noite com o cintilar no fundo das colunas de fumo que se erguem no horizonte. Os mais pequenos são sempre os primeiros a cair. Mas os caixotes do lixo grandes ardem da mesma forma. E os ecopontos também… excepto o vidrão.

O povo não será livre enquanto houverem caixotes do lixo.

domingo, 11 de novembro de 2012

Produtividade vs Gatos

Em primeiro lugar quero expressar o meu espanto ao visitar este blog. Comecei por meter o título no google porque não fazia ideia do hosting que estava a usar (depois de tanta experiência com o wordpress, usar o blogger é como resolver física nuclear com uma criança com síndrome de Down que por acaso também está na casa de banho com gastroenterite). Foi espantoso como o Cavalo Colombo aparece como primeiro resultado na busca... mas presumo que tal se deve ao nome ser absurdo.

Oh gatinho! Não consegues fazer uma duckface!

Quando cá chego deparo-me com textos que não fazia ideia de ter escrito e a data infame de junho, o último post. Talvez mude o blog de localização... mas isso implicava alterar uma alocação de tempo em que estaria a ver gatos.


Adiante com coisas (igualmente não) importantes,

Deixo a questão, alguém se lembra da internet antes dos gatos? Eu não. Já pensei em procurar mas (obviamente) acabei num site de gatos... ou de corgis (que são o equivalente canino de gatos pouco asseados). 

Se me tento lembrar de algo antes deste fenómeno que impulsionou a falta de produtividade para níveis soviéticos, apenas me ocorre o farmville. E ainda assim esse fantástico jogo (e pensem em mim a falar num tom de voz superior porque nunca joguei) ainda requeria algum planeamento, alguma interacção. Ainda existia algum resultado! Era uma grande empreitada... para construir uma quinta... virtual... no facebook. Era uma vergonha... mas com produto final.

E os gatos são piores. São horas perdidas entre scottish folds, maine coons, british short furs, golden shaded persians, a navegar sem verdadeira direcção, ovários e festa (tanto em homens como mulheres). Não me refiro a festa como um aniversário de delegados de informação médica, antes uma celebração nacional mexicana, com confetis, animais em espetos, fogo de artifício a rebentar no ar e nas mãos. É tão grande a excitação das gónadas femininas que nem sequer se dá a ovulação, porque pode estar frio nas trompas e então é melhor o oócito levar um casaco ou ficar em casa.

Hoje decidi aprender a programar para o Android. Em parte para desenvolver programas que sejam incompatíveis com o iphone, em parte por...não, é mesmo só por isso. Mas a minha tarde foi absorvida a partilhar a experiência da minha namorada, a ver gatos a sentarem-se em coisas e a serem inaptos a realizar tarefas humanas.

Pela falta de produtividade de hoje, amanhã não vou poder gozar com os meus colegas detentores de spawn do Steve Jobs.

...mas ao menos vi gatos... talvez no meu futuro isso seja importante.


Concluíndo muito mal (porque não sei bem onde deixar esta peça de informação fundamental), penso que as duas grandes prioridades da ONU deveriam ser

a) gatos;
b) a Internet... como meio de distribuição de fotos de gatos.

Ah... e vão aqui: Mythic Bells
Divirtam-se!

terça-feira, 19 de junho de 2012

Se eu te bato é só porque gosto de ti

Jesus Cristo ficaria orgulhoso de nós!
(Quando me referir a médicos estou a tratar da maioria e não de algumas excepções que não fazem diagnósticos diferenciais quando uma tosta sai queimada)

É o lema de todos os pais que gostam de assentar a mão (ou o cinto) nos filhos. É assim que se corrigem os erros na educação, com reforço pavloviano. Talvez às vezes funcione. Neste caso não vai funcionar.

Para quem não sabe, vai haver uma greve dos médicos no mês de Julho. Para quem não sabe porquê, existe a causa principal e as justificações. Segundo as notícias, ao mesmo tempo que cessam os novos contractos na função pública médica, o ministro da saúde decidiu contratar uns quantos milhões de horas para tapar buracos nos hospitais: para atender doentes indiferenciados nas várias situações que o justifiquem. Isto ao mais baixo preço. Os médicos queixam-se, não admira. Afinal de contas aquela ideia de obrigar o mundo todo a fazer contracto é só válida para quem não pertence ao SNS? Um médico quer a sua estabilidade!
Tudo bem até aqui, aliás, eu até concordo que o esquema é uma palhaçada. Mas onde acabam os factos começa a burrice, burrice constatada nas conversas de café e nos grupos do facebook que tenho visitado.
Os profissionais de saúde têm sido vitimizados pelas paralisações dos transportes públicos. Felizmente são melhores que os maquinistas, eles estudaram mais, eles têm uma ética (dá-se no 5º ano e é obrigatório passar). Os médicos quando fazem greve não prejudicam as pessoas! Sim, não estou a brincar, há quem tenha dito isto. Mais que um! E não eram psiquiatras! Quando fazem greve existem serviços mínimos na mesma, o equivalente ao hospital de fim-de-semana. Ninguém fica por tratar… isto se for urgente. Pelos vistos para alguns médicos o facto das pessoas de 2 dias terem a consulta adiada sabe-se lá para quando não é problema nenhum. Não é urgente, urgente é lutar pela dignidade da profissão. Ao menos os maquinistas não mentem a eles próprios…

Quando o monge da saúde toma a bata branca abdica de toda a sua vida. Ou pelo menos alguns colegas de profissão assim pensam, que passam sempre a pôr a saúde dos doentes em primeiro lugar. É um ideal bonito. E é por isso que quando os médicos fizerem greve, estarão a fazê-la pela saúde das pessoas! Não tem nada a ver com interesse pessoal! As pessoas não podem passar com esquemas económicos de redução de despesas que comprometem tão francamente a qualidade de saúde. O objectivo do estado é literalmente contratar pessoas pouco qualificadas, sem especialização. A pergunta que uma pessoa normal (presumidamente com senso comum) faria a seguir é “e o que fazem os estudantes durante 6 anos que no fim ainda não são capazes de fazer urgência básica?”. Eu não sei responder a essa pergunta. Possivelmente terá a ver com o tempo que se perde em coisas como
- Introdução à medicina
- Medicina preventiva
- Ética
- Medicina Geral e Familiar
- Aulas de 2 horas sobre lavar as mãos

…que poderiam ser tratados em 1/10 do tempo, deixando mais para o importante. Eu pessoalmente sou da opinião que quando uma pessoa tira um curso de 6 anos era interessante ter alguma saída directa para o mercado que não fosse “saúde 24” e “call center da tmn”. Mas isto sou só eu.
Continuando, os médicos então fazem greve para precaver o futuro dos utentes. Belo. Porque se fizerem, o ministro vai encontrar dinheiro debaixo da cama para pagar as contas que o SNS anda a fazer. E porque vai ter todo o interesse em fazê-lo. Ou então não. A greve dos maquinistas, ao contrário da greve dos médicos, chama a atenção. As pessoas não podem ir trabalhar, não têm mobilidade, as estradas escorrem carros por todas as saídas, milhares de vidas são infernizadas e a popularidade governamental sofre com isso. Se os professores fazem greve há 30 pais por professor que não sabem o que fazer com os filhos, estão parados a vê-los atrasarem-se no programa e darem cabo do futuro. Quando o Santa Maria não fizer consultas durante dois dias quem vai dar por isso? Talvez uns 15 doentes por médico. Vão ter que remarcar, esperar mais um pouco, vão apanhar o metro de volta ao trabalho enquanto dizem que é “uma maçada”. Se estiverem mesmo doentes vão ter urgência na mesma. Uma semi-paralização médica é uma chatice, mas se o metro está fechado é um escândalo. E o senhor Macedo vai ligar a isso? Claro que sim! Era feio se não fosse dizer à televisão que vai tentar acomodar os “nossos” interesses o melhor possível. Vai ser evasivo e vai ficar tudo na mesma. Se a greve raramente funciona para os maquinistas, então para os médicos vai ser tão eficaz como a pílula de açúcar.

Mas ai de quem diga isto! Aliás, umas pessoas disseram isto. A “classe médica” revelou então a sua classe enchendo os pulmões de falácias lógicas e arremessando-as como vómitos explosivos. Tiros a torto e a direito mas saliento os dois melhores, o “tu não és médico, não percebes nada de saúde” e o “tu és muito novo para perceber o que é a luta de um trabalhador”. Já que o primeiro foi lançado a um economista doutorado, entende-se. Afinal de contas os raciocínios que eu aqui apresentei estão errados nitidamente, nunca foram provados pela experiência e são desprovidos de base lógica. Visto que o economista também os apresentou mas não sabe o peso de uma bata branca de algodão e fibra sintética, não sabe do que fala. A saúde não gasta dinheiro, metem-se miminhos no chão e a árvore das patacas deixa cair cateteres e máquinas de tomografia. Outros incultos, entre ciências políticas e engenharia são igualmente incapazes de perceber as necessidades do SNS. E aquele tipo que tinha menos que 20 anos? Então, esse não sabia nada do que é trabalhar! É preciso respeitar os mais velhos, com mais experiência. Por isso é que eu oiço sempre a minha avó quando diz que as queimaduras se tratam com manteiga. Quem está debaixo da árvore tem a visão completa das do topo. Aqueles tipos que ali vão a passar de helicóptero deviam estar calados.

Resto eu, um parvo inculto que não sabe nada da vida, a ovelha negra dos estudantes de medicina, que sabe-se lá como passou nas entrevistas inexistentes de admissão à faculdade, diabo sem uma réstia de compaixão. Eu sou ignorado, para ser insultado na privacidade das casas de médico. E eu sou aquele que pede desculpa.

Peço então desculpa a todos os que foram insultados pelos médicos por não partilharem dos seus ideais paladinos. Peço também a todo o profissional de saúde que contemple o problema pelo que realmente é: as estruturas governamentais nunca podem oferecer confiança; a saúde não fica mais barata graças ao SNS, só fica mais cara e pior.

E àqueles que pensam em vir chatear com o sistema privado dos EUA, não existe sistema privado nos EUA, existe um sistema em que o governo oferece monopólio às seguradoras, cria estruturas que aumentam artificialmente o preço da saúde e mais de metade da população está abrangida por um plano de saúde público (efectivamente mais uma vez não se pode confiar no governo). Procurem antes outro país para dar maus exemplos.